Mucosa queratinizada ao redor de implantes: ela realmente faz diferença no longo prazo?
- dennisguimaraes
- 21 de mar.
- 3 min de leitura
Durante muitos anos, o sucesso dos implantes dentários foi avaliado quase exclusivamente por dois critérios: osseointegração e sobrevivência do implante. Mas a implantodontia evoluiu. Hoje, quando falamos em sucesso real, já não basta que o implante esteja “preso ao osso”. É preciso avaliar também a saúde peri-implantar, a estabilidade dos tecidos moles, a facilidade de higiene, o conforto do paciente e a manutenção dos resultados ao longo do tempo.
Dentro desse contexto, uma pergunta continua extremamente relevante:
A presença de mucosa queratinizada ao redor de implantes é realmente importante?
Um estudo prospectivo publicado por Roccuzzo e colaboradores em 2025, com acompanhamento de 20 anos, trouxe uma resposta muito consistente para essa discussão.
O que o estudo avaliou?
Os autores acompanharam implantes colocados na mandíbula posterior e compararam três situações clínicas:
implantes com mucosa queratinizada (KT)
implantes sem mucosa queratinizada, com mucosa alveolar (AM)
implantes inicialmente sem KT, mas que receberam enxerto gengival livre (FGG) ao longo do acompanhamento.
O objetivo foi observar se a ausência de mucosa queratinizada interferia em parâmetros como:
perda óssea marginal
sangramento à sondagem
recessão de tecido mole
peri-implantite
deiscência de tecido mole.
Os principais achados após 20 anos
Os resultados foram bastante claros.
Implantes sem mucosa queratinizada apresentaram, em comparação aos implantes com KT:
maior perda óssea marginal
mais sangramento à sondagem
mais recessão de tecido mole
maior incidência de peri-implantite
mais deiscência da mucosa peri-implantar.
Entre os dados mais impactantes do estudo, destacam-se:
perda óssea marginal média de 0,66 mm no grupo com KT versus 1,29 mm no grupo sem KT
recessão média de 0,43 mm no grupo com KT versus 2,69 mm no grupo sem KT
peri-implantite em 4,2% dos casos com KT versus 25% nos casos sem KT
deiscência de tecido mole presente em 100% dos implantes sem KT.
Em outras palavras: a ausência de mucosa queratinizada não se associou apenas a uma pequena diferença clínica. Ela esteve ligada a pior estabilidade peri-implantar em vários níveis, inclusive com aumento do risco de doença.

E o enxerto gengival livre?
Um dado muito relevante do estudo foi o comportamento dos implantes que, embora inicialmente sem KT, receberam enxerto gengival livre (FGG).
Nesses casos, os parâmetros clínicos e radiográficos foram melhores do que nos implantes sem KT que não receberam intervenção, aproximando-se dos resultados observados nos implantes com mucosa queratinizada natural.
Isso sugere que, em casos selecionados, a reconstrução da faixa de mucosa queratinizada pode ter efeito protetor no longo prazo.

Por que isso pode acontecer?
Do ponto de vista biológico e clínico, a explicação faz sentido.
A mucosa queratinizada tende a oferecer:
mais conforto durante a higiene, reduzindo dor ou incômodo na escovação
maior estabilidade marginal, com menos mobilidade do tecido
melhor resistência mecânica e inflamatória
um ambiente mais favorável para manutenção da saúde peri-implantar.
Na prática, tecidos mais estáveis favorecem uma higiene mais eficaz e parecem tolerar melhor as agressões mecânicas e bacterianas ao longo do tempo.
Isso significa que todo implante precisa obrigatoriamente de mucosa queratinizada?
Não é correto transformar esse estudo em uma regra absoluta.
O próprio desenho metodológico impõe cautela: trata-se de um estudo observacional, não randomizado, com perda de seguimento ao longo de 20 anos e número pequeno de casos no grupo tratado com enxerto.
Ainda assim, a mensagem clínica é muito forte:
Na mandíbula posterior, a ausência de mucosa queratinizada esteve associada a piores desfechos peri-implantares em longo prazo.
Isso não significa que todo implante sem KT irá falhar, mas reforça que o fenótipo de tecido mole peri-implantar não deve ser negligenciado.
O que isso muda na prática clínica?
Esse estudo reforça uma mudança importante de mentalidade na implantodontia contemporânea.
Hoje, não devemos analisar apenas:
posição do implante
volume ósseo
tipo de prótese
Também é essencial avaliar:
presença ou ausência de mucosa queratinizada
mobilidade do tecido marginal
conforto durante a higiene
tendência à recessão
risco de inflamação e de doença peri-implantar
Em alguns casos, especialmente quando há mucosa móvel fina, desconforto à escovação ou sinais de instabilidade tecidual, o enxerto gengival livre pode ser uma intervenção importante para melhorar o prognóstico.
Conclusão
O estudo de Roccuzzo et al. reforça que a mucosa queratinizada ao redor de implantes não deve ser vista apenas como um detalhe anatômico. Em longo prazo, ela parece funcionar como um fator protetor da estabilidade peri-implantar, especialmente na mandíbula posterior.
Mais do que manter um implante osseointegrado, o desafio atual é manter um implante biologicamente estável, higienizável e saudável ao longo dos anos.
E, para isso, o tecido mole importa — e muito.
Baixe o PDF deste artigo para conhecer os dados completos do estudo e aprofundar sua análise crítica. E, se você deseja aplicar esse raciocínio clínico com mais segurança na prática, veja também os cursos disponíveis no site do Dr. Dennis Guimarães e conheça os programas voltados ao aperfeiçoamento em cirurgia plástica periodontal e peri-implantar.





Comentários